# Fernando Lima Cunha > Escritor ## Posts - [A substância da Substância](https://fernandolimacunha.com/a-substancia-da-substancia/): She’s a sinner in a side show She feels at home when there’s nowhere left to go She’s the devil, you understand Break the man Tears For Fears, “Break the Man” (2022) TANTO A CANÇÃO ACIMA quanto A Substância (The Substance, EUA, 2024), filme de Coralie Fergeat estrelado por Demi Moore, parecem exprimir certa característica dos tempos em que vivemos. Fui longe, mas aproximo o foco: é que só agora, no streaming, assisto o filme ganhador do Oscar de melhor maquiagem, além de concorrer em mais quatro categorias, incluindo melhor atriz, direção, roteiro original e filme. A película já havia… Home - [Manuel morreu](https://fernandolimacunha.com/manuel-morreu/): Manuel morreu. Marcaram o velório no Cemitério da Capelinha, uma salinha desse tamanhinho. Quase não deu tempo de avisar a ninguém que o Manuel morreu, foi tudo às pressas, de ontem pra hoje. Infarto fulminante, puf, morreu. Avisaram no trabalho do Manuel: “o Manuel morreu.” A menina disse “depois eu falo, tá todo mundo em reunião agora.” Ela cumpriu a promessa e disse depois da reunião: “Seu Juracy, o Manuel não vem hoje.” Ia completar que o Manuel morreu, mas o chefe não perguntou nada, só grunhiu e deu as costas. Marcaram o enterro para as duas da tarde. O… Home - [Mulher pelada](https://fernandolimacunha.com/mulher-pelada/): Não sei o que deu na dona Lúcia que um dia foi me chamar lá em casa. Quer dizer, foi chamar minha mãe e pedir que eu fosse brincar com o Gil, filho único dela e do pai que trabalhava na Voith (o pai fazia questão de dizer que trabalhava na Voith; devia ser importante a Voith). O Gil estudava na minha escola. Não vou dizer que era um amigão, não. Mas era legalzinho, tranqüilo, o Gil. Também a dona Lúcia era amiga da minha mãe (colega: minha mãe dizia que amigo é uma palavra muito forte e que a… Home - [O ringue](https://fernandolimacunha.com/o-ringue/): 1 A composição despejava as trabalhadoras, às centenas, em horário comercial. Apressadas, elas desembarcavam afoitas, com mochila ou bolsa atracada ao corpo e aglomeravam-se em frente às escadas de saída. Nos semblantes, a impressão de uma vida de suplícios para faturar algum dinheiro. O bairro da estação final era repleto de galpões com tijolos aparentes, todos castigados pelo tempo e escurecidos pela fuligem e a poluição; construções que remontavam ao início do século passado, de tijolos ingleses, muito resistentes. Diversas fábricas funcionaram ali, onde hoje companhias de telemarketing alugavam a bom preço aqueles paredões arruinados. Embora exibissem por fora um… Home - [Os meninos consertados](https://fernandolimacunha.com/os-meninos-consertados/): Reportagem exclusiva da revista New Science, edição de novembro de 2048 QUANDO O GENE DO MACHISMO foi identificado pela dupla de cientistas Meredith Mayer e Sheronda James-Jones, a comunidade internacional vibrou com aquilo que a presidente americana Angela Streep classificou como “a libertação da humanidade”. Isso porque, graças ao mapeamento da linha machista presente no DNA dos humanos-com-falo, seres popularmente chamado de homens, as pesquisadoras conseguiram remover com sucesso, já no colo do útero e na fase embrionária, o que se convencionou chamar de a linha indesejada. A linha indesejada é justamente aquela que a dupla Mayer-Jones identificou com elegância… Home - [O gordinho do videogame](https://fernandolimacunha.com/o-gordinho-do-videogame/): Na rua tinha a turma e tinha o gordinho do videogame. O pessoal falava que a mãe dele era gerente de banco e acho que era a única mulher da vizinhança que trabalhava fora. Nossas mães eram só mães mesmo, e isso não era pouca coisa não. Mas a mãe do gordinho do videogame era a única que trabalhava fora e saía de carro para trabalhar, um carro novinho e grandão igual ao do Antonio Fagundes na novela. Quase ninguém tinha carro na rua. O pai do Binho tinha um Passat cor de pamonha que derramava óleo e o pai… Home - [Samuel, nobre Samuel](https://fernandolimacunha.com/samuel-nobre-samuel/): Nunca fui amigo de Samuel Ribeiro, embora quisesse sê-lo no início, quando o conheci. Acompanhei seus primeiros passos nas letras por alguns anos, quando o lia nos idos de dois mil e poucos num blogue. Aliás, lamento minha nesciência — defeito do qual o Aquinate diz, com todas as letras, isentar do inferno e da perdição seu portador — e me sinto aliviado, embora um pouco constrangido. Explico: é que apesar de gostar um bocado dos escritos de Samuel à época, jamais imaginei ser ele quem era. Samuel é rebento do pai Affonso, o grande jurista e escritor Affonso Ribeiro… Home - [O Revolucionário Fator Z](https://fernandolimacunha.com/o-revolucionario-fator-z/): 1 Quando ouviu a assertiva do doutor Norton, o professor Zarzur mal acreditou em seus ouvidos: “ouçam o que digo, senhores. Em dez anos, todos comerão fezes humanas.” O cientista pronunciou a frase uma vez, mas ela ressoou três vezes na cabeça de Zarzur, girou como um papel que rodopia ao vento. Não só Zarzur, mas toda a comissão ficou estupefata. Aquilo soava repugnante além de absurdo. Mais, era também uma piada de mau gosto e pueril, típica de criancinhas na fase anal freudiana, totalmente imprópria para um cientista tão renomado como Norton. Ora, quem em sã consciência comeria fezes?… Home - [O relojoeiro](https://fernandolimacunha.com/o-relojoeiro/): 1 NAQUELE DIA, COMO TODOS OS DIAS, o relojoeiro postou-se diante da portinha de aço e abaixou-se com dificuldade. Puxou a chave correta do molho atado ao passador da calça e rápido a inseriu no cadeado de chão, girou, abriu. O ritual matutino escondia a dificuldade recente de agachar-se, compensada pelo gesto preciso e metódico, quase reverencial: desperdiçar movimentos era um luxo a que o relojoeiro não se dava mais, pois uma hérnia pressionava-lhe o cóccix ultimamente, de modo que o agachamento dava-se de modo cuidadoso para não travar a coluna. Desde rapazinho o relojoeiro internalizara a máxima do velho… Home - [Clarice e o claricismo](https://fernandolimacunha.com/clarice-e-o-claricismo/): Por volta de 1975, por aí, chegou ao conhecimento de dona Clarice Lispector que três escritoras do território nacional inauguravam o gênero literário claricismo. O claricismo consistia numa escrita toda calcada em epifanias, porém de segunda mão, baseada nos livros da autora. Epifanias em nada parecidas com as reais de dona Clarice, que à altura não era nenhuma mocinha e já andava meio irritada com tudo e mais um pouco (“cansaço”, mentia, se perguntada; no climatério, queria mesmo é que não lhe enchessem os pacovás). Os tais livros de claricismo irritavam a autora, pois continham apenas anacolutos com pontuações de… Home - [A lição de João Cabral](https://fernandolimacunha.com/a-licao-de-joao-cabral/): Trabalhei na famigerada Faria Lima entre 2013-15, no departamento de marketing de um banco não muito famoso. Como minha hora de almoço fosse mais prolongada (1h30, mas se passasse um pouco não tinha problema), eu aproveitava o intervalo para, além de obviamente almoçar, caminhar um pouco. Andar sozinho não era problema para mim, pelo contrário. Aproveitava a caminhada para refletir e observar ao redor, algo que adorava e adoro fazer. Foi assim que descobri a biblioteca Anne Frank, meio escondidinha ali no bairro: toda murada com tijolos aparentes, o predinho térreo tem uma bonita arquitetura dos anos 1960 e, com… Home - [Dona Tuca e o homem tóxico](https://fernandolimacunha.com/dona-tuca-e-o-homem-toxico/): 1 Manhã de sábado. Paulino Eiras de França Júnior se senta no sofá com um suco de laranja numa mão e um misto-quente que acaba de tirar da sanduicheira na outra. Ele gostava de tomar seu café da manhã assim, relaxado, de moletom velho e chinelo, na sala do apartamento de dois dormitórios que financiara em 30 anos pelo sfh e para o qual mudara-se há sete meses. Ele liga a televisão de 50 polegadas da qual ainda pagava as prestações — dividira tudo em 24 vezes no cartão de crédito — e procura algo para assistir. Enquanto zapeia no controle remoto, França dá… Home - [A indômita Frangland e a jornada dos franglish](https://fernandolimacunha.com/a-indomita-frangland-e-a-jornada-dos-franglish/): 1 MUITO EMBORA CHAMEMOS GLOBO TERRESTRE, nosso planeta não apresenta a forma duma esfera perfeita mas um pouco ovalada, como aquelas bolas de duvidosa procedência que comprávamos em vendinhas na infância. Acrescente-se que seu eixo — um palitão imaginário a atravessar a Terra de alto a baixo — também não se encontra perpendicular a retíssimos 90 graus, feito o palito na maçã do amor, mas algo inclinado, a aproximadamente 23,5 graus. Assim afirmam os melhores tratados da ciência astronômica e todos os peritos no assunto. Posição tão pitoresca no sistema solar faz com que o giro descrito por nosso planeta em torno de si… Home - [Zé Lins ensina a ironizar](https://fernandolimacunha.com/ze-lins-ensina-a-ironizar/): Ainda leio jornal que suja a mão, no bom e velho papel. Faço isso desde guri, quando meu pai lia o Diario Popular (sem acento no “a”, mesmo) ou a Gazeta Esportiva, ambos de São Paulo, extintos. Pouco mais tarde, na adolescência, minha irmã mais velha encasquetou de ser jornalista e, em busca de referências, muniu-se de periódicos mais chiques: a Folha e o Estadão. Lembro especialmente das edições dominicais desses jornais, que pesavam por volta de um quilo cada exemplar. Era leitura para a semana toda. A partir de então, aprendi a ler colunistas, não sei porquê. Não parei… Home - [Véio da Havan no Museu do Prado](https://fernandolimacunha.com/veio-da-havan-no-museu-do-prado/): Horas depois de tomar a terceira dose da vacina contra a Covid-19 — o booster by Pfizer — sentei-me um pouco no sofá, pois o imunizante causara em mim o que na boa Bahia chama-se leseira. Reação à vacina. Mas tentei passar a leseira de um modo interessante, e então, ao bater os olhos numa velha coleção repousada na estante, intitulada Grandes Mestres da Pintura, puxei o volume 7 que trazia as obras de Diego Velázquez (1599–1660). Inevitável ver a reprodução dos quadros do pintor espanhol e não sentir um enlevo na alma. Mergulhamos no indecifrável ao ver suas telas, saímos de onde estamos… Home - [Meus sete níveis da prosa literária](https://fernandolimacunha.com/meus-sete-niveis-da-prosa-literaria/): Certo dia, pus-me a pensar na questão “o que é literatura?”. A palavra evoca certa erudição à primeira vista e há variadas definições para ela. Pessoalmente, diria à minha filha de seis anos que literatura é o mesmo que a arte da escrita. Não importa qual gênero textual. Por exemplo, é consabida a história dos famosos relatórios administrativos de um certo prefeito de uma cidadezinha do interior das Alagoas: um tal de Graciliano Ramos. O alcaide teve o talento para a escrita descoberto por meio daqueles papéis burocráticos que relatavam a situação da administração do município. Ocorreu que a veia… Home - [os senhores respeitáveis](https://fernandolimacunha.com/os-senhores-respeitaveis/): os senhores respeitáveis: se reúnem novamente os senhores respeitáveis. deliberam, entreacordam, engendram leis detestáveis os senhores respeitáveis. urdem tramas nos carpetes, contra campos e cidades os senhores respeitáveis. jamais cuidam realmente da gente as necessidades os senhores respeitáveis. dentro em casa, nobres damas gestam a continuidade dos senhores respeitáveis. longe, esperam as amantes que saciam apetites dos senhores respeitáveis. moral falsa: capa útil, camuflagem das maldades dos senhores respeitáveis. - [A alma sensível](https://fernandolimacunha.com/a-alma-sensivel/): Para além da inteligência, há quem possua uma força invisível que vivifica e impele sempre adiante e acima. Uma gente inconformada, no sentido de não se encaixar em formas predefinidas nem em camisas de força. Não são renegados nem rebeldes, mas espíritos elevados, movidos por virtudes afirmativas e não por oposições e implicâncias. São poucos, entretanto. Não há designação única e definitiva para personalidades assim. José Ingenieros chamou tal disposição de “o idealista”. Ernst Hello, de “homem superior”. O profeta Daniel designa tal caráter como “espírito excelente”. Há outros exemplos. A essa força motriz, a esse ímpeto provindo de fonte… Home - [Diálogo com Odeque](https://fernandolimacunha.com/dialogo-com-odeque/): Cesare Pavese escreveu Diálogos com Leucó, um clássico; eu arranho um Diálogo com Odeque, um pastiche. Antes, o dito-cujo: Odeque é O. de C., Olavo de Carvalho. À guisa de preâmbulo, autorizo-me a dialogar com este Odeque de minha criação mental, pois apesar de ter sido seu aluno durante uma década, o mestre propriamente dito não me conhecera em pessoa. Andei ali pela escolinha entre 2006 e 2015, meio às escondidas, num tempo em que o máximo de fascismo que um petista podia conceber encarnava-se na acabrunhada figura do dr. Geraldo Alckmin. Bons tempos. Pois bem antes de o coisa-ruim… Home - [Bicho romancista, filhote romance](https://fernandolimacunha.com/bicho-romancista-filhote-romance/): O bicho romancista não é apenas um contador de histórias. Seu ofício não deve ser visto como qualquer coisa menor, como se não passasse de inventar uns quantos causos razoavelmente elaborados ou conversa fiada na forma de livro. O bicho romancista pode ser também um artista do idioma, filósofo, historiador, psicólogo, profeta, (santo não digo). E até mais. Bicho é modo de dizer, pois ele é estranho à primeira vista. No entanto, pode ser mais gente que a gente. O romancista penetra no tecido da realidade, por entre as tramas, com sensibilidade e argúcia. Ele enxerga a alma humana com… Home - [O gentil-homem](https://fernandolimacunha.com/o-gentil-homem/): Em tempo de minorias e identitarismos mil, ninguém fala dele: do gentil-homem. Não do homem pura e simplesmente, por favor. Homem é coisa (sim, coisa) detestável per se hoje em dia, categoria condenada por sábios e entendidos de gêneros e temas afins. Falo do gentil-homem, outro papo. Gentil-homem é aquele tipo boa praça, razoável ou minimamente culto, um pouco tímido, um bocado acanhado, sempre contido. Trabalhador, estudioso, vai por aí. Obviamente honesto e invariavelmente bondoso; jovem ou nem tão jovem. Um tipo de quem a vovó quando moça chamaria bom partido. Aquele a quem Baltasar Gracián dedicou toda uma obra,… Home - [A primeira impressão é a que fica?](https://fernandolimacunha.com/a-primeira-impressao-e-a-que-fica/): “Axe. A primeira impressão é a que fica.” O famoso slogan data dos anos 1980, quando os comerciais de tevê não desfrutavam dos atuais recursos de computação gráfica, de imagens em 4K HDR a 60 frames por segundo e outros recursos tecnológicos da atualidade. Naquele tempo, a limitação visual da publicidade era compensada criativamente pelo texto publicitário, e há toda uma galeria de propagandas daquele período que se tornaram marcantes, inesquecíveis: o dilema de Tostines, o efeito Orloff, e tantos outros. Embora ótimo, o slogan “a primeira impressão é a que fica” talvez caísse bem para o desodorante, não para… Home - [Como encontrei Júlio Verne](https://fernandolimacunha.com/como-encontrei-julio-verne/): Ouvia falar muito, mas nunca prestei a devida atenção à figura do escritor francês Levei exatas quatro décadas para ler Júlio Verne, no seu A Volta ao Mundo em 80 Dias. Leve, divertido e de ótima prosa, o livro transportou-me aos tempos de Sessão da Tarde, na infância, quando passavam na tevê aqueles filmes de aventura divertidíssimos como os de Indiana Jones e Allan Quatermain. Não falarei do livro, que aliás recomendo. Falarei de seu autor, sr. Júlio Verne, o próprio. Ouvia falar muito, mas nunca prestei a devida atenção à figura do escritor francês. Um dia, passando pelo pátio… Home - [O outro Crime e Castigo](https://fernandolimacunha.com/o-outro-crime-e-castigo/): Assim são as grandes obras de ficção: seríssimas. Mais sérias que o mero factual A respeito de Dostoiévski e sua obra-prima Crime e Castigo, leitores ilustres e críticos em geral são unânimes em apontar um ingrediente que admiram na obra: a redenção de Raskólnikov, depois de desferir suas machadadas na pobre velha usurária e em sua azarada irmã. Entretanto, Raskólnikov não me desperta qualquer simpatia, malgrado sua suposta redenção no final (ai, spoiler! já foi). O sujeito permanece cínico e indiferente ao crime cometido por toda a trama— exceto pela irritação causada pelo noivado da irmã, reação que no fundo… Home - [Gilson, um brasileiro](https://fernandolimacunha.com/gilson-um-brasileiro/): “Tá com inveja?” Gilson morria de medo dessa frase. Imagine só, ter inveja. Pecado capital. De modo que Gilson era generoso. Parabenizava todo mundo: pelo novo emprego, pelo novo cachorro, pela nova promoção. No fundo, acreditava, celebrar a conquista alheia talvez funcionasse como uma cosquinha na barriga da existência, um cafuné no destino: talvez o universo retribuísse a generosidade dele algum dia. Gilson curtia o post, comentava; era fofo. Não perdia um aniversário nas notificações, parabenizava a viagem do conhecido — que mal lhe respondia de volta. “Feliz por você, brother”. Nada. Se mulher, Gilson comentava com tato e sensibilidade,… Home - [O inútil do escrever](https://fernandolimacunha.com/o-inutil-do-escrever/): Fazer o que seja é inútil. Não fazer nada é inútil. Mas entre fazer e não fazer mais vale o inútil do fazer. Mas não, fazer para esquecer que é inútil: nunca o esquecer. Mas fazer o inútil sabendo que ele é inútil e que seu sentido não será sequer pressentido, fazer: porque ele é mais difícil do que não fazer, e dificilmente se poderá dizer com mais desdém, ou então dizer mais direto ao leitor Ninguém que o feito o foi para ninguém. – João Cabral de Melo Neto, O artista inconfessável Se uns sábios, ilustres e entendidos em… Home - [Gorjeios literários](https://fernandolimacunha.com/gorjeios-literarios/): Antonio Abujamra costumava perguntar ao entrevistado, em seu extinto Provocações, ao saber que este lia com frequência: “qual é o autor que você já encontrou? E qual ainda não encontrou?” O entrevistado nunca saía-se bem nessa questão. Natural. Quando lemos literatura com alguma frequência, nossos autores preferidos vão se afunilando, diminuindo, diminuindo… não raro, desgostamos de muitos clássicos que, sim, são obrigatórios, e nos afeiçoamos a outros nem tão clássicos assim, por vezes longe disso. Pessoalmente, dá-me uma pontinha de vaidade saber de autores muito bons e quase desconhecidos da maioria. Bobagem? Talvez. Como toda vaidade, ora essa. Parece-me que… Home - [desequívoco](https://fernandolimacunha.com/desequivoco/): não tenho lado, apenas percebo não porto bandeiras, trabalho a intuição: não vão atar-me a interesses sujos inconfessos nem a perversas sensatezes cínicas de mil e uma seriedades calhordas. desistam de mim, senhores. desistam. se me puxarem, não irei se me desprezarem, os desprezei antes: assim, empatamos; mas eu triunfei. o que quero? bem benigno e vero, em tudo e a todos não só a conveniência vil e cega dos demônios. eu vi: quis-se dinheiro de início, e isso foi tudo hoje querem mais: prestígio, pétrea razão, lavar cérebros suscetíveis. ah, não o meu; o meu não terão. se tenho… Home - [A Eterna Fluidez](https://fernandolimacunha.com/a-eterna-fluidez/): Diário Inconstante, 19.10.2020 Há tempos não vinha à Barra Funda, por motivos vários. O que tem de especial na Barra Funda? Nada em particular. Para mim, porém, aquelas ruas guardam memórias de quando trabalhava aqui, por anos, em duas fases importantes da minha vida. Mas a pandemia me afastou desse enclave que hoje serve apenas como passagem apressada entre um ponto A e um ponto B da cidade, para a maior parte dos paulistanos. Penso que o bairro guarda um misto de aristocracia perdida no tempo, substituída por uma decadência pacata. A Barra Funda é um bairro com variados cheiros,… Home - [Superstição](https://fernandolimacunha.com/supersticao/): Tenho uma superstição. Quem não as têm? Eis a minha: se acho dinheiro no chão, não guardo comigo nem levo para casa. Procuro algum necessitado na rua e entrego o fruto de minha sorte inesperada. Exibicionismo de virtude a uma hora dessas? — dirá você. Nem tanto. Posso explicar. Certa vez, achei dez reais. Sabe, aquela cédula do Cabral comemorativa dos 500 anos do Brasil, lançada em 2000? Como esquecê-la? A cédula foi produzida em papel celofane e seu material se desintegrava mais rápido que seu valor sob a inflação do período. Enfim, achei aquela bendita cédula na calçada e,… Home - [Alma de explorador](https://fernandolimacunha.com/alma-de-explorador/): Sou um grande explorador. Grande não, minto: um pequeno explorador. Do tipo que vai e vê, capta a substância e volta. Mas vou, pois necessito. Preservo a lucidez, contudo. E Deus como porto seguro. Como se diz, “confiar desconfiando”. Discreto, entro e capto os sons, atento-me aos movimentos: de modo que não sou um homem do subsolo mas outro, que pára ao meio da escada que leva ao porão e dali estuda o ambiente. Se a escuridão é muita lá embaixo e o cheiro de mofo arde-me as narinas, volto, antes que me fechem a porta e não haja retorno… Home - [Do tempo](https://fernandolimacunha.com/do-tempo/): Talvez não devamos aproveitar, mas saber perder tempo com tudo de bom e útil. O tempo é nosso ativo particular, avaliado em bilhões. Tempo, atenção e dedicação são o novo petróleo do mundo: sondado, explorado e capitalizado. Embora intangível, a atenção tem alto preço e a gente nem se dá conta. Se o tempo se esgota, esgota-se a vida. E quem ganha com isso? Que sejamos nós: tenhamos tempo para nós mesmos. Texto 100% Criação Humana / 0% Inteligência Artificial (Selo criado por Beth Spencer) - [Amar demais](https://fernandolimacunha.com/amar-demais/): Durante algum tempo, tive um carrinho de que gostava muito. Sei lá, me apeguei. Foi meu primeiro carro e fiquei mais de década com ele. Tinha motivos para me afeiçoar: foi com ele que levei meu filhinho recém-nascido, asmático à época, a passar noites em hospitais; foi com ele — o carrinho, digo — que peguei a estrada com minha recente e linda familinha, em muitos feriadões prolongados. Achava que ninguém cuidaria melhor daquele carro do que eu. A primeira dona, ao contrário do que o povo diz (carro de mulher, etc.), foi relapsa e negligente com ele. Descobri depois,… Home - [Opinião](https://fernandolimacunha.com/opiniao/): já anoiteceu mulher concebeu folha caiu galho partiu calo doeu vento bateu freio perdeu: lá capotou cá colidiu jovem morreu rua detrás: cão tropeçou sim, e daí? sim, pois então? sempre acontece de tudo de tudo e em nada influi minha opinião. - [Natal?](https://fernandolimacunha.com/natal/): Fui assaltado no Natal. Na antevéspera de Natal. De modo que, minha resposta chata à pergunta chata da tia chata, “Sabes o sentido do Natal?” Pelo menos o desse ano posso dizer: “Sei. Assalto.” Não, não gosto de Natal, desse período. Jamais gostei. Natal é coisa pra americano brincar de neve na tevê. Aqui, nem neve a gente tem: faz um calor dos diabos no hemisfério. Natal é uma coisa que o Brasil aprende na tevê, pra comprar e gastar com Coca-Cola. Isso: Natal é invenção da Coca-Cola. Natal é dar e ganhar presente errado; ter gratidão por ganhar aquilo… Home - [O totalitarismo digital](https://fernandolimacunha.com/o-totalitarismo-digital/): O universo digital ainda acabará com a cultura humana. Em poucos anos não haverá mais registro histórico, memória. Não saberemos a estética de uma certa época, quais sabores tinham, que cores gostavam. Diários, hoje, são as redes sociais. Filmes? Dados, códigos binários. Música? Apps, streamings. Leitura? E-books (mas estes nem tanto, o papel ainda resiste; resta uma esperança). Mas é alarmante: em tudo hoje impera o todo-poderoso algoritmo. O que será das coisas, daquilo que se pode pegar com as mãos, coisas que abrem e fecham, que tocamos e guardamos conosco? O que será dos cinco sentidos corporais com esse… Home - [O drama da alma inteligente](https://fernandolimacunha.com/o-drama-da-alma-inteligente/): O sonho de toda alma inteligente é encontrar outras almas inteligentes. Escrevo alma, e uso inteligente para adjetivá-la; poderia simplesmente dizer inteligente, o substantivo; mas a distinção é intencional e necessária. Nem todo inteligente, convencionalmente falando, possui uma alma inteligente. Existem indivíduos notavelmente cultos que no entanto são precários em matéria de sensibilidade, de discernimento. Também não me refiro àquela tal inteligência emocional tão propalada nos anos 1990. Como defino a alma inteligente: aquela aberta à percepção sutil, que pode sim se valer da cultura, não na epiderme ou protocolarmente, mas na substância, para assim enxergar o mundo que a… Home - [A metamorfoice, o blog, a vida...](https://fernandolimacunha.com/a-metamorfoice-o-blog-a-vida/): ANTES do último suspiro deste esquisitíssimo 2018 brasileiro, uma palavrinha aos meus dois ou três leitores eventuais. Primeiro, algo sobre A Metamorfoice. Desculpem a inconclusão do conto, aliás aguardadíssima (pfff…). Desistiram dele? Com razão, admito. Eu faria o mesmo. Eis o que ocorreu: o conto foi dividido em seis partes, sei como termina e não desisti do final previsto. Já escrevi a parte faltante faz tempo, mas não gostei do resultado, do desenrolar da coisa toda. Pretendo terminar o conto até o fim de janeiro próximo, palavra. Tchekhov estava certo, afinal de contas: deve-se escrever o conto em três dias… Home - [A falência da Abril e as redes sociais](https://fernandolimacunha.com/a-falencia-da-abril-e-as-redes-sociais/): Sei que é contraditório e irônico postar isto justamente aqui, numa mídia digital, mas a falência da Abril ligou um alerta em minha mente. Na verdade, já vinha pensando nisso há algum tempo: a morte da comunicação impressa, especialmente revistas e jornais. Constato que a comunicação em papel escapa do horizonte de toda uma geração emergente, quem dirá das próximas. Por exemplo, muitos jovens na casa dos vinte anos (arrisco dizer a maioria) nunca compraram uma revista na vida, exceto sob influência dos pais, na infância. Mesmo onde trabalho (e trabalho numa mídia impressa!), numa conversa alheia, um “garoto” de… Home - [Mentirosos](https://fernandolimacunha.com/mentirosos/): — MENTIROSOS não gostam de mentir. Mentem por vício, por doença. O sonho de todo mentiroso é contar a mentira uma única vez e não precisar tocar mais no assunto. O problema é que a mentira volta: ela sempre retorna à superfície, reaparece sabe-se lá como, e o mentiroso tem de encará-la, de novo e de novo. A mentira perfeita é aquela dita uma só vez, todos acreditam nela, e procuram outra coisa para fazer: e o mentiroso, assim, suspira aliviado… - [A metamorfoice (parte 4)](https://fernandolimacunha.com/a-metamorfoice-parte-4/): DIA APÓS DIA, Gregor Soros adaptava-se à vida de inseto humano. Numa segunda-feira pela manhã, a exemplo dos encontros com seus executivos, reuniu a mulher e o médico oficial para incumbir-lhes a tarefa de convocarem os melhores pesquisadores de Harvard e Stanford e outros geneticistas com autoridade reconhecida na área, a fim de investigarem mutações no DNA e possíveis modos de reversão ao estado original. Cuidadoso para não contrariar o bilionário de modo ríspido, o doutor advertiu-lhe que pesquisas científicas deste calibre costumam ser lentas e dispendiosas, poderiam arrastar-se por anos, com resultados incertos; e que seu caso requeria tratamento… Home - [A metamorfoice (parte 3)](https://fernandolimacunha.com/a-metamorfoice-parte-3/): A FIM DE não prolongar muito o relato e causar enfado, registre-se que Gregor Soros conseguiu driblar engenhosamente as dificuldades iniciais de adaptação ao seu novo aspecto repugnante. Mulher e filho, após o choque inicial e todas as reações correspondentes, por fim condoeram-se da situação. Passaram por fases alternadas de pavor, nojo, negação, raiva, desespero, mas enfim começavam a resignar-se. Gregor Soros construíra um núcleo familiar muito sólido, e este foi seu teste decisivo. Com ajuda do terapeuta de confiança da família — que tinha com eles há muito um contrato de absoluto sigilo e confidencialidade — ambos, esposa e… Home - [A metamorfoice (parte 2)](https://fernandolimacunha.com/a-metamorfoice-parte-2/): GREGOR SOROS passou todo aquele dia enclausurado em seu aposento. Ele, que sempre tivera respostas rápidas para as situações mais complexas, não encontrava explicação para o acidente que lhe acometeu. À hora do desjejum, a criada chamou-o junto à porta, duas batidas leves: como não ouvisse resposta imediata, retirou-se, sabia que não devia importunar. Gregor S. não sentia fome naquele momento, sua aflição tirou-lhe todo o apetite. Rastejava-se pelo quarto, de um lado para outro. Por sorte o ambiente era amplo, uma confortável suíte bem equipada que permitia a qualquer um passar muitas horas ali, aposento digno de um bilionário.… Home - [A metamorfoice (parte 1)](https://fernandolimacunha.com/a-metamorfoice-parte-1/): NUMA MANHÃ, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Soros, também conhecido como George Samsa, encontrou-se metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, quando levantou um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado e marrom, dividido em segmentos arqueados, sobre o qual o negro edredon de seda chinesa deslizara ao chão, dada a falta de aderência de sua nova e asquerosa forma. Ante a visão surreal, ficou chocado; suas perninhas em vários pares mexiam-se incontrolavelmente, de uma forma bizarra e repugnante. “O que terá acontecido comigo?”, indagou-se, confuso. Ao mirar seu reflexo no enorme espelho… Home - [As celebridades e a histeria coletiva](https://fernandolimacunha.com/as-celebridades-e-a-histeria-coletiva/): DE UNS TEMPOS PARA CÁ, iniciou-se um ciclo de histeria coletiva no chamado meio artístico, desde o show business americano, do noticiário ao cinema, e que vez ou outra respinga no Brasil — já que espirro americano logo vira pneumonia por aqui — por meio da Rede Globo e cia. limitada. Este ciclo de histeria coletiva é efeito colateral do politicamente correto, o qual, se inicialmente policiava termos ofensivos substituindo-os por eufemismos polidos para não ofender minorias e grupos fragilizados, hoje tornou-se um festival de acusações malucas e denunciações paranóicas de males abstratos que, a julgar pelo que é denunciado… Home - [Marte e Vênus](https://fernandolimacunha.com/marte-e-venus/): O MUNDO foi de Marte, hoje é de Vênus. Quando e se a era venusiana declinar, o mundo voltará novamente ao estado marcial, por força da contingência. Eis como tal coisa sucede. Marte e Vênus alternam-se ao longo das eras, em períodos cíclicos. Marte, por meio das guerras e da força bruta — à custa de muito sangue, músculos, cérebros e vidas inteiras — cria e estabelece a “normalidade” na sociedade humana. O deus vence o mundo hostil e o conquista. Funda (ou refunda) civilizações, nações desenvolvem-se; e, paulatinamente, aquela brutalidade inicial torna-se desnecessária, cedendo lugar à paz, à beleza… Home - [A arte do romance](https://fernandolimacunha.com/a-arte-do-romance/): ROMANCISTAS não são apenas narradores ou contadores de histórias. São também artistas da língua que penetram por entre as “malhas” da vida e da realidade, com sensibilidade e argúcia, e internalizam em si a verdade das coisas, sem sentenciar, pontificar ou julgar. Sutilmente. Ser romancista é a plenitude da literatura. Afinal, onde mais, a não ser no romance, se pode descrever múltiplas faces da existência, faces por vezes caleidoscópicas reunidas numa mesma personalidade, a não ser neste gênero literário? A filosofia e a poesia não são capazes de tal, nem se propõem a tal. Romances dão “material” à filosofia. São… Home - [A “morte” do amor romântico](https://fernandolimacunha.com/a-morte-do-amor-romantico/): O ROMANTISMO morreu no Ocidente. Mataram o romantismo no Ocidente. A hipervalorização do sexo e da sexualidade em si mesma, o culto deliberado do prazer corporal e de orgasmos como direito político-ideológico sufocaram o romantismo, estrangularam-no pouco a pouco, a ponto de hoje este transformar-se numa caricatura distante, cuja expressão é sistematicamente sonegada nas representações artísticas, nos filmes, na música (especialmente nesta), nos programas televisivos e nas propagandas em geral. Ao mesmo tempo, a cada dia que passa erige-se uma espécie de culto pagão, não ao amor romântico, mas ao resultado final abstraído deste mesmo amor: a relação sexual. Funciona… Home - [Jeitinho brasileiro é para poucos](https://fernandolimacunha.com/jeitinho-brasileiro-e-para-poucos/): — O TAL “jeitinho brasileiro” só persiste porque brasileiros em geral não percebem que burlar regras para levar vantagem é luxo disponível apenas para ricos e influentes. Pobres e classe média pouco remediada, quando aplicam o jeitinho brasileiro inadvertidamente, levam de volta um trabuco muito pior. Ao pobre, o melhor é seguir as regras e aproveitar as oportunidades que obtém dentro dos meios oficiais, galgando pequenas (e sólidas) vitórias. Mas muitos não se dão conta disso, iludem-se com uma sorte de malandro que não possuem, e se estrepam. - [Coisa irritante](https://fernandolimacunha.com/coisa-irritante/): HÁ MUITAS coisas irritantes e cada um tem sua lista pessoal de coisas irritantes. Da minha, destaco um item: não restringir a si próprio. Este, asseguro, é um dos vícios prediletos nestas paragens. Sinal de nossa falta de civilidade, categoria abortada no solo pátrio desde a precisa data de 15 de novembro de 1889. Não restringir a si próprio, o que é? O termo vai além da expressão não se tocar ou não se mancar. Para entender melhor, imagine que você, eu ou qualquer pessoa tenha certo espaço delimitado em torno de si, algo como um círculo. Melhor: imagine cada… Home - [Mal-humorados x bem-humorados](https://fernandolimacunha.com/mal-humorados-x-bem-humorados/): — MAL-HUMORADOS não são realmente muito sexies e agradáveis; não são desejados à primeira vista. Ninguém os convida para festas, por exemplo, a menos que se tenha um bom motivo para isto. No entanto, eles tendem a ser mais competentes e a cumprir à risca a expectativa que lhes é depositada. Uma vez pouco procurados, cada pequena missão que recebem será feita da melhor forma que puderem, pois precisam provar que são bons no que fazem. Simpáticos e carismáticos, por outro lado, tendem à mediocridade. O esmero que lhes falta é compensado por sorrisos e humor leve, e a massa… Home - [A revanche](https://fernandolimacunha.com/revanche/): As certezas todas e meus arrimos A um só tempo mostraram-se inúteis: À ruptura dos tempos, calei, amargurado. Ao derredor vi alegres niilistas, Férteis e prósperos a vicejar, E a negar minha expectativa Dum inevitável e exemplar castigo. Justiça divina? Justiça minha: A duras penas descobri. Mas não me arrependi. Fechei-me Em sérias convicções a eles obsoletas, quiçá risíveis, quando as expunha. Depois, encasulei-me: tranquei da alma As portas e janelas, cerrei as cortinas. Pouco se me dava, fosse noite ou dia Ou data festiva: queria de volta O tempo aprazível, a beleza sã, Seguro esteio que neguei ser ilusão.… Home - [Falso moralismo!](https://fernandolimacunha.com/falso-moralismo/): EXPERIMENTE apelar à moral numa certa situação: logo alguém se levantará e esbravejará “falso moralismo!” com o dedo em riste. Pergunto: onde está o verdadeiro moralismo? Quem indiscutivelmente é autoridade em matéria de moral? Sim, porque na expressão falso moralismo, de modo implícito se está a dizer que existe o verdadeiro moralismo. Para todo falso corresponde um verdadeiro e vice-versa, certo? Pois bem: se, via de regra, quem apela à moral é falso e hipócrita, quem será verdadeiro? Na acusação “falso moralismo!” há um equívoco, um princípio cristão enlouquecido, para usar a expressão de Chesterton. O princípio é o seguinte:… Home - [Sacrifício](https://fernandolimacunha.com/sacrificio/): Exigiram-me tanto, e por tantos anos… Minha sina foi ser preterido, recusado Encetei um esforço sobrehumano: Alcei-me qual Ícaro à altura das demandas E, de fato, voei — a uma altitude julgada insuficiente, porém. Equipei-me, treinei, lancei mão dos recursos que a última tecnologia disporia: Duro lance que levou nervos, tempo e energia: — minha própria vida. Não obstante, consegui! Superei e bem alto voei! Aqueles, contudo, eram outros requisitantes Cuja opinião compartilhada foi a de que voadores Era coisa já obsoleta e ultrapassada. Destarte, toda minha vaidade alada Se esvaiu num átimo, ante a cíclica negação De iníquos que… Home - [Alma gêmea](https://fernandolimacunha.com/alma-gemea/): Quem dera os sentidos de meu corpo Suplantassem a vil matéria E adentrassem a malha etérea De tua alma, além da forma: Saber na fonte intuições Inefáveis, tua própria metafísica Que mesmo a razão pura inalcança. Quisera eu deslizar, feito plasma, Na compleição pulsante e viva Onde o pensar não brotou, não nasceu: Pré-verbal, embrionário, substancial. Quem sabe se lá, eu penetrado, Visse, com olho vão e limitado, O amor nascente em teu espírito nuclear E no lago onde repousam tuas vivas emoções Nítido, contemplasse, refletido à superfície A inequívoca presença do meu eu. - [Reclamar é humano](https://fernandolimacunha.com/reclamar-e-humano/): ALGO QUE não compreendo é o problema que certas pessoas têm com reclamações. “Odeio gente que reclama!” Ora, e por quê? Pois eu desprezo quem nunca reclama: não há nada mais falso do que reprimir-se e nunca reclamar. Por acaso quem não suporta queixas vive uma vida perfeita, numa permanente Disney World existencial? Há quem advirta aos demais de que não se aproximem dela se for para reclamar. Há quem não suporte quando um outro lhe chama de canto e desabafe e lhe faça objeções. Que fracas, que fraquinhas são essas pessoas anti-reclamação! O bom-humor e a leveza delas depende… Home - [O garoto e a loja hostil](https://fernandolimacunha.com/o-garoto-e-a-loja-hostil/): QUANDO GAROTO, gostava de passear pelo centro de São Paulo e explorar sozinho lugares que antes só frequentava com meu pai. Digo sozinho porque acabava de conquistar o direito de andar pela cidade desacompanhado, de modo que aqueles passeios tinham um significado todo especial para mim. Foi uma conquista. Um dos lugares nos quais passeava era pelas lojas de instrumentos musicais. O ano era 1994, e naquela época eu estudava teclado. Sonhava adquirir um daqueles instrumentos para mim: via as vitrines, vários deles expostos. As lojas permitiam que se experimentassem, que se tocassem os teclados; ao menos, foi o que… Home - [Do preconceito](https://fernandolimacunha.com/do-preconceito/): ACUSAR alguém de ser preconceituoso confere ao acusador, no mesmo instante em que acusa, a condição de juiz da moral alheia. Ao acusar isto é preconceito!, o acusador autoriza-se no mesmo instante a praticar o seu próprio preconceito contra o acusado, enquanto fica isento de receber a mesma acusação de volta. Quando aponta preconceitos alheios, o acusador estabelece instantaneamente uma hierarquia moral na qual ele está acima e o outro, submetido a seu julgamento, está abaixo. Tal hierarquia moral dá ao acusador uma primazia desde a qual ninguém poderá julgá-lo: afinal de contas, réus julgarem juízes como forma de retaliação… Home - [O rebanho cultural](https://fernandolimacunha.com/o-rebanho-cultural/): NÃO EXISTE moda que brote espontaneamente: toda e qualquer moda é sempre criada por alguém, visando um determinado fim. Este, aliás, é o objetivo de todo modismo: abolir ou transformar certos valores vigentes e substitui-los por outros, conforme os interesses daqueles que conduzem — ou pretendem conduzir — a sociedade. Ao mencionar moda ou modismo, não refiro-me apenas à vestimenta, mas a toda cultura de massas, algo abrangente, que vai da estética corporal ao estilo arquitetônico das cidades, da música popular aos valores morais em geral. Ao seguir modismos, as pessoas não o fazem apenas por gosto ou prazer, mas… Home - [Corra, Elisabeth, corra](https://fernandolimacunha.com/corra-elisabeth-corra/): ELISABETH era uma mulher que corria na esteira da academia, mas sua vida não se resumia a isso. Elisabeth fazia muito mais. Era jovem, independente e solteira. E bonita, não exatamente deslumbrante, mas atraente. Elisabeth era esforçada, dedicada e — para usar seu adjetivo preferido — “focada”. Sonhava ter uma sólida carreira, tornar-se profissional de respeito, referência em sua área, talvez executiva. Trabalhava e estudava e malhava para isso. Pertencia a uma nova geração de mulher, cosmopolita e empoderada, que sabe o que quer da vida, bem ao contrário da mãe, das tias, da avó. Durante a faculdade, estagiara num… Home - [O missionário e a tribo](https://fernandolimacunha.com/o-missionario-e-a-tribo/): UM MISSIONÁRIO chegou a uma tribo distante, quase isolada e que não constava no mapa. Instalou sua cabana perto dali e passou a observar os nativos, aprendendo sua língua e costumes, para enfim catequizá-los de uma maneira que eles pudessem entender, de acordo com sua cultura. Todos os dias o missionário, com a bênção do pajé (ou o seu equivalente), observava os costumes da tribo: como era sua rotina, como caçavam, como pescavam, o quê comiam. E nessas observações o missionário, a cada coisa que aprendia, tomava notas a fim de registrar o modo de viver dos nativos. Anotava minuciosamente,… Home - [volta](https://fernandolimacunha.com/volta/): desista, ele disse: desista de poemas. crédulo e dócil à autoridade da mera voz grave e unanimemente respeitada acreditei e parei. .   .   . esterilidade e silêncio. .   .   . tudo graças a ele, autoridade da mera voz grave cujo nome figurava no topo da hierarquia. obedeci: não sei quê me deu. fiz-me nulo. calei. contudo, não recebi agradecimento de nenhuma espécie pela deferência à ordem estabelecida. depois, eu vi. não sei como, vi: entendi que parar não devia: retomei. a mera voz grave, já sem autoridade, posto que ignorada é despreocupadamente desobedecida, a despeito do perigo iminente nunca concretizado, e chutada prum canto… Home - [Literatura é bobagem?](https://fernandolimacunha.com/literatura-e-bobagem/): A MAIOR, a melhor e mais importante obra de literatura poderia ser considerada bobagem: qualquer um que vença as duas mil páginas de Guerra e Paz após o ponto final do último parágrafo poderia fazer cara de tédio, fechar o volume e suspirar: — Quanta bobagem… Mais: qualquer um conseguiria, sem dificuldade, ler um diálogo de Sócrates e bocejar: — Quanta encheção de linguiça, quanta besteira… Declare que algo é bobagem, e ela o será — ao menos para a pessoa em questão. Se uma grande obra literária, um clássico, fosse considerada bobagem na época da publicação, a obra nem… Home - [A nova mania](https://fernandolimacunha.com/a-nova-mania/): CHAME de implicância se quiser, mas acabo de detectar uma nova mania: o tom professoral. Muitos parecem dar aula ao falar com os outros, com didatismo e autoridade de especialista. Opiniões, impressões, o bom e velho achismo? Que nada: o negócio agora é ser peremptório. É ensinar. Sintoma disso é o uso disseminado da interjeição “entendeu?” no fim das frases. Ninguém mais pergunta “concorda?”, “não é?”, “o que acha?” Não: querem certificar-se de que você “entendeu”. Sim, professores, entendi. Sinal dos tempos. Quanto mais desorientado anda o país, mais entendedores surgem do nada, do thin air. Outro dia mesmo, no… Home - [o antipoético](https://fernandolimacunha.com/o-antipoetico/): mata o calor a água fria surge você sai poesia - [A Diversidade e eu](https://fernandolimacunha.com/a-diversidade-e-eu/): ESTOU eu no metrô, quando de repente senta (despenca) ao meu lado a Diversidade. Distraído com um livro velhinho à mão, levo um susto, mas logo me recomponho. A Diversidade começa a remexer na bolsa, nervosamente. Abre zíper, fecha zíper, mexe, remexe. E minha concentração vai para o espaço. A leitura estava tão boa… pô, logo ao meu lado? Não teve jeito: tive de reparar na Diversidade. Disfarçando, evidentemente. Era jovem, franzino (franzina? franzinx?), tinha uma mecha azul no alto da cabeleira e espinhas secadas recentemente, vejo de reflexo. Após os trabalhos na bolsa, retira o smartphone, cruza, descruza e… Home - [pauliceia gris](https://fernandolimacunha.com/pauliceia-gris/): — dezesseis graus lá fora: céu nublado em São Paulo; adoro nublado em São Paulo. cinza-morte do asfalto, rejeito; desprezo o bege-tédio das casas. mas, pauliceia, teu celeste gris, mescla pastel, carvão e giz, amo: teu fundo neutro perfeito acentua        as cores das moças        o verdor das árvores        multicor dos jardins. noto monumentos! por breve momento, há beleza em São Paulo. esqueço de te odiar, se observo, atento teu céu cinzento, São Paulo e o bonito que ele faz mostrar. - [O cínico](https://fernandolimacunha.com/o-cinico/): É CONFORTÁVEL ser cínico, à primeira vista. O cínico olha para uma pessoa, situação ou idéia, e lança sobre elas sua suspicácia corrosiva, sempre pronto a enxergar malignidades ocultas no objeto de seu cinismo, malignidades as quais, imagina, os demais não notaram. O cínico sente prazer na insinuação maliciosa. Atribui dolo a qualquer um, exceto a si mesmo: se houver qualquer hipótese de erro alheio, ainda que remota ou não comprovada, o cínico não titubeia: delirante, aponta mil maldades, na máxima extensão possível, envolvendo seu acusado num poço de sujeira imaginária. Para o cínico, erro não é acidente, não pode… Home - [quase](https://fernandolimacunha.com/quase/): corro, taco roupa, paro à margem: fico, não pulo. o lago imóvel me caçoa. cato as peças, retroajo: enxabido, humilhado. faltou pouco, sempre falta: casmurro, logo empaco. vida besta, a vida-semi! nunca tudo, nunca lá! sempre prestes: inconcluso, só empate. e o lago riu de mim. “ia pular, ah, devia!” colo aqui, não reajo. eu, covarde? meio a meio. tudo em parte: sou um quase. - [A integração da personalidade](https://fernandolimacunha.com/a-integracao-da-personalidade/): A META: alcançar, um pouco de cada vez, a integração da personalidade. Da roupa que uso ao trabalho que exerço, do alimento do corpo ao alimento do espírito: desejo alcançar uma unidade tal na vida que irradie bem-estar a mim mesmo e a quem conviver comigo. Integração da personalidade. Ela ultrapassa o mero “saber o que quer”: fulano “sabe o que quer”. Não, não se trata disso, somente. É um centro existencial, uma segurança interior. É olhar o próprio rosto no espelho, no fundo dos olhos, e perceber no semblante, na voz, nos gestos, no porte, no expressar e em… Home - [A literatura no Brasil estomacal](https://fernandolimacunha.com/a-literatura-no-brasil-estomacal/): ÀS VEZES me pergunto por que raios alguém ainda se aventuraria com literatura no Brasil. Sim, é uma pergunta clichê: tão clichê que talvez seja a terceira mais freqüente nas FLIPs da vida (as duas outras discorrem sobre política e sexo, imagino). Mas meu ponto é outro. Literatura é item de primeira necessidade para alguém? Sim e não: para quem consome ou produz literatura, sim, sem dúvida; porém, para o Brasilzão big picture, para a massa, decididamente, não. É algo que nem lhe passa pela cabeça. E por quê? Porque o Brasil é um país eminentemente estomacal, isto é, tem… Home - [A vingança dos barbudos gourmet](https://fernandolimacunha.com/a-vinganca-dos-barbudos-gourmet/): BARBUDOS, barbudos por todo lado. Para onde quer que se olhe, há um ser humano do (cambaleante) sexo masculino portando uma questionabilíssima barba. Está na moda. Diante disso, um amigo blasé me aconselharia a encarar o fenômeno como mero produto da moda, portanto algo passageiro. Sim, a moda é assim, eu sei. Essa onda passará também, cedo ou tarde. Observo que há uma recente indústria em torno das barbas gourmet, como foi na década passada a onda das pet-shops. Ser barbudo não se trata mais de desleixo, de deixar os pêlos tomarem a cara e não fazer nada a respeito,… Home - [Picante](https://fernandolimacunha.com/picante/): PRECONCEITO eu tenho, tu tens, nós temos, eles têm. Quem não tem, que atire a primeira pedra. E os maiores preconceituosos, veja só, são os acusadores do preconceito alheio — ok, provavelmente não tenham preconceitos oficiais, reconhecidos em cartório. Mas têm vários outros, seguramente. O preconceito faz parte da natureza humana, como o cerume e a remela; assim como estas, são sinal de boa saúde e tem uma função, não existem à toa. São indesejáveis apenas por uma questão de higiene e etiqueta social. Preconceito é uma proteção — talvez excessiva, talvez descabida. Seria uma prudência doente, diria assim. No… Home - [Estupefato](https://fernandolimacunha.com/estupefato/): Fico estupefato com esse homem tão lógico, de frieza geométrica que traça planos na mesa enquanto o mundo arde Fico estupefato com o tipo que ostenta vitória material e conseguiu melhorar na pior maneira de viver Fico estupefato com a vida-máquina pronta, artificialmente programada enquanto ninguém se prepara para envelhecer Fico estupefato com a mulher que devora o presente como se fosse tudo como se mil contatos lhe fossem úteis à hora do perigo Fico estupefato com o sofrimento besta das gentes, que não era pra ser enquanto noutra parte dançam e brindam à desfaçatez Fico estupefato com a injustiça… Home - [Arrependimento?](https://fernandolimacunha.com/arrependimento/): — “SÓ me arrependo do que não fiz.” Invejo-lhe, meu caro soberbo. Eu me arrependo de tudo que faço. Na vida, se tem uma coisa que faço, é me arrepender. Há coisas de que 1. gostaria de ter feito melhor, ou 2. gostaria de não ter feito jamais. Sou um arrependido incurável, confesso. Ou talvez seja apenas normal. - [Inferior, medíocre, superior](https://fernandolimacunha.com/inferior-mediocre-superior/): A ALMA inferior é incapaz de perceber a grandeza. Para ela, grandeza de espírito não existe, simplesmente. Não porque a negue: é algo que lhe escapa, não lhe ocorre, dada sua capacidade de apreensão diminuta e precária. O inferior vive para as necessidades mais básicas da sua corporalidade, num nível lamentavelmente rasteiro, que requer mais compaixão que censura. A alma medíocre percebe a grandeza; porém, de modo confuso, sempre negativamente. A grandeza é uma sombra da qual tenta fugir. Teme render-se a ela: para o medíocre, tudo que se eleva é uma ameaça. Diante da superioridade, o medíocre precisa achatar,… Home - [O homem de gênio e o talentoso](https://fernandolimacunha.com/o-homem-de-genio-e-o-talentoso/): INÚMERAS injustiças afligem o mundo. Ponho minha lupa numa delas: há pessoas geniais vivendo abaixo do que merecem e talentos medianos vivendo acima do que merecem. É incrível. Há pessoas dotadas de enorme potencial, inteligentes, sábias e capazes, mas seus resultados – aquilo que efetivamente obtém com sua alta capacidade – são parcos, modestos, diante de suas enormes possibilidades. Não existam pessoas totalmente desprovidas de talento. Todos tem algum dom, obviamente. Um desperdício. E o outro tipo de pessoa? É aquele com algum talento, não brilhante. Gente razoável, regular, dão conta do recado e só. Poderia-se chamá-las medíocres, embora o… Home - [Pós-modernidade on the rocks](https://fernandolimacunha.com/pos-modernidade-on-the-rocks/): QUINTA-FEIRA, final de tarde. Faz frio. Entro no bar que acaba de abrir. Salão vazio, escuro: dia de pouco movimento, somente funcionários arrumando toalhas nas mesas. Sento-me ao fundo, num cantinho próximo à vidraça. Ouço o arrastar das cadeiras, aqui e ali. Barulho irritante. Chamo o garçom. Ele vem de-va-gar em minha direção e me atende sem olhar nos olhos. Pela expressão, pareço incomodá-lo com minha presença, como se fosse um intruso ali. Vai ver cheguei na hora errada. Pode ser. Peço uma garrafa de pós-modernidade, com gelo no copo. O rapaz traz a bebida. Não, não vou comer nada.… Home - [Considere o caso consigo](https://fernandolimacunha.com/considere-o-caso-consigo/): QUANDO o garoto José contou a seus irmãos um sonho que tivera, eles, enciumados e revoltados com o que ouviram, logo conspiraram para vendê-lo como escravo no Egito. Está na Bíblia, em Gênesis. Antes disso, quando o pai de José, Jacó, ouviu o filho relatar o sonho — de que toda sua família, pai, mãe e irmãos se ajoelhariam perante a ele algum dia, no futuro — ele estranhou a princípio, ficou contrariado; mas, diz a Bíblia, considerou o caso consigo. Considerou o caso consigo. Chamo a atenção para essa expressão. Desde a primeira vez que a li, aí pelos… Home - [Pensando bem... (vol. III)](https://fernandolimacunha.com/pensando-bem-vol-iii/): ATEU: quem crê cegamente na inexistência de Deus. * Não tem bom gosto quem não sabe contemplar. * Não existe bom gosto sem gosto pela arte. * À inteligência corresponde sempre certa elegância. * Praga invencível e devastadora: a mídia. * A propaganda destrói a modéstia. * A primeira coisa de que um jovem deveria conscientizar-se é de como se veste mal. * Jornalismo: 50% picuinha, 40% fofoca, 10% relevância. * Houvesse jornalismo desde o início dos tempos, não conheceríamos amor nem ódio, somente cinismo. * É velho reclamar do moralismo; reclamemos agora do safadismo. * Não confie em quem… Home - [Eu, o suspeito](https://fernandolimacunha.com/eu-o-suspeito/): SENDO homem e não sentindo nenhum incômodo por sê-lo, frequentemente sou vítima de olhares estranhos quando vou a certas lojas nos shopping centers. Não, os olhares não vêm de colegiais de blusas Gap com milkshakes em punho, exalando olor de cereja dos cabelos. O olhar, na verdade, vem de simpaticíssimos seguranças. Por que raios se preocupariam comigo? Vejamos: não creio ter “cara de suspeito” — é escusado dizer o que vem a ser cara de suspeito; fiapos brancos me aparecem nas têmporas; ruguinhas surgem aqui e ali… embora não me vista como um fidalgo, não ando aos trapos, nem sou… Home - [fim](https://fernandolimacunha.com/fim/): cai trágica, traga e tritura, destrói, acaba, some: o que é, era, sobra da sobra vã tentativa de explicar a dor tripudia sombra absoluta nada a buscar crueza brusca impiedosa inabarcável: tua ausência me apareceu no fim do fim tua partida eu não consigo não entra em mim. - [Humor inteligente?](https://fernandolimacunha.com/humor-inteligente/): DUVIDO que alguém realmente inteligente goste de humor inteligente. Inteligentes buscam inteligência em muitas coisas, exceto em comédias. Humor é fazer graça: o mais pastelão, o mais mambembe, o mais escrachado: se fez rir, cumpriu bem seu papel. Humor é espontaneidade, um golpe de surpresa que explode em risos. Nada cômico é sugerido de antemão, programado: “olhe, este humor é diferente, ok? para rir diferentemente”. Qual é o objetivo do humor inteligente? Gargalhadas intelectuais? Isso existe? Os grandes humoristas nunca foram presunçosos. Que exista humor inusitado, vá lá; mas, humor inteligente? Nem humor, nem inteligente: apenas uma boa desculpa de… Home - [Da arte](https://fernandolimacunha.com/da-arte/): A arte é fascinante. Quando nos toca, passa a ser parte de nossa constituição, aloja-se na alma, metaboliza-se em nós. Não sabemos e nunca saberemos, concretamente, o estado de espírito do artista ao realizar a obra. Não vimos o que o pintor viu, não sentimos o que o poeta sentiu, não estávamos na cena que o escritor observou ao fazer o romance. Por que o músico usou aquela harmonia e não outra? Que pretendia o escultor ao dar o primeiro talho na pedra? Impossível saber. Pouco importa, no entanto: ao nos depararmos com a arte, ela nos penetra, nos atinge… Home - [Resistência à vergonha](https://fernandolimacunha.com/resistencia-a-vergonha/): NENHUMA condição humana intrínseca dá orgulho. Quem é feliz consigo mesmo não alardeia de punhos em riste, antes adota uma postura leve e ao mesmo tempo magnânima, sem afetação. Ao invés de orgulhosa, gente feliz é autoconfiante e serena. E é bem-resolvida: não briga por algo já conquistado e estabelecido em si. Quem tem a personalidade assentada não busca convencer outros daquilo que é; age naturalmente, com simplicidade. Uma boa ilustração é a diferença entre o nobre e o novo-rico: o nobre pode ter Ferraris se quiser; pode ter jóias caras e outros símbolos de riqueza. Mas não as têm,… Home - [A voz do Brasil](https://fernandolimacunha.com/a-voz-do-brasil/): QUANDO o padrão moral abaixa, tudo o mais abaixa. Sinal claro disso é a maneira como soa a voz brasileira na atualidade. No Brasil de hoje, quando se presta atenção, é espantoso como as falas soam artificiais, arrastadas, enjoativas, etc. Irrita a forma como as pessoas falam. Conhece aquele tom típico das reuniões de departamento? É disso que se trata. A afetação estúpida na voz dos homens, o vício das mulheres em falar para ouvirem a si mesmas. Quem ainda consegue conversar com alguém por cinco minutos no Brasil? A fala masculina – quando de fato é masculina, algo cada… Home - [Querem sua cabeça](https://fernandolimacunha.com/querem-sua-cabeca/): NÃO se engane: o seu pensamento está em disputa. Querem escravizá-lo mentalmente e subjugar seu cérebro. É preciso cuidado: novos padrões aparecem o tempo todo, sabe-se lá de quais buracos. Ninguém estranha, só assimila. Comem a ração que lhes dão. Adesão tácita e dócil: é com isso mesmo que eles, os engenheiros sociais, contam. Pseudo-problemas, eis a tática. Um milhão deles: você mal assimila um, lhe atiram outro. Para isso, utilizam a mídia, as redes sociais. Simultaneamente. As vozes são unânimes: ninguém diverge, ninguém coça a cabeça um pouco, ninguém pergunta “será?” Não faltam notícias e cases em tom comprobatório,… Home - [Diálogo entre moças](https://fernandolimacunha.com/dialogo-entre-mocas/): — IMAGINA só, menina! Deus me livre! Não nasci pra isso, não! E tem mais, é um negócio pro resto da vida, não quero me comprometer assim! E se eu não quiser mais, depois de uns anos? Já pensou? Só de imaginar que eu vou ficar velhinha presa nisso aí… Mesmo que eu queira sair, recomeçar do zero, sempre ficam marcas profundas. Olha, não é pra mim, não. Prefiro ficar longe disso, estou bem assim. — Casamento? — Não. Tatuagem. - [Sobre a moda](https://fernandolimacunha.com/sobre-a-moda/): A MODA surgiu para destacar a individualidade. Bem, ao menos no início foi assim. Nos dias made in china em que vivemos, porém, ela tornou-se o oposto: hoje não há nada mais nivelador que a moda. Quando inova, apenas troca uniformidades do presente por uniformidades do futuro. A isto chamam tendência. Curiosamente, isso em nada incomoda o consumidor. Ele sequer percebe o que acontece. E não incomoda precisamente porque, sendo humano, no fundo, ele não busca singularidade, mas homogeneidade; quer parecer e pertencer, sente prazer no mimetismo. É um processo inconsciente, na maioria das vezes: estar na moda é ser… Home - [O homem-cápsula](https://fernandolimacunha.com/o-homem-capsula/): UM TIPO comum na cidade é o homem-cápsula. Todo dia ele acorda em seu apartamento-cápsula. Veste-se e sai para trabalhar, tomando o elevador-cápsula do prédio-cápsula onde mora, até o estacionamento. Entra em seu veículo-cápsula e dirige-se ao trabalho. Uma hora depois (se não chover, se chover leva mais tempo), o homem-cápsula adentra o moderno edifício-cápsula para acessar seu escritório-cápsula todo envidraçado e sem janelas. Meio-dia ele almoça na copa-cápsula, após receber o almoço delivery: homens-cápsula são muito ocupados, não têm tempo a perder. Às seis da tarde, o homem-cápsula deixa o escritório-cápsula. Aguarda o elevador-cápsula aparecer no hall, lotado; desce… Home - [O homem-cápsula](https://fernandolimacunha.com/o-homem-capsula-2/): Um tipo comum na cidade é o homem-cápsula. Todo dia ele acorda em seu apartamento-cápsula. Veste-se e sai para trabalhar, tomando o elevador-cápsula do prédio-cápsula onde mora, até o estacionamento. Entra em seu veículo-cápsula e dirige-se ao trabalho. Uma hora depois (se não chover, se chover leva mais tempo), o homem-cápsula adentra o moderno edifício-cápsula para acessar seu escritório-cápsula todo envidraçado e sem janelas. Meio-dia ele almoça na copa-cápsula, após receber o almoço delivery: homens-cápsula são muito ocupados, não têm tempo a perder. Às seis da tarde, o homem-cápsula deixa o escritório-cápsula. Aguarda o elevador-cápsula aparecer no hall, lotado; desce… Home - [Dois lados](https://fernandolimacunha.com/dois-lados/): “QUANTO mais conheço as pessoas, mais gosto do meu cão.”— Mark Twain. — Adoraria saber a opinião do seu cão sobre você, Mark. - [Pensando bem... (vol. II)](https://fernandolimacunha.com/pensando-bem-vol-ii/): O MEDÍOCRE só admira gênios mortos. São inofensivos. * Ser do contra: a teimosia da impotência. * Idiotas nunca mudam de opinião. * Mentiras eficazes contém um pouco de verdade. * Relativizar a beleza: a vingança elegante da feiura. * Curioso: a verdade não irrita ao mentiroso, mas ao idiota. * Inexistem: 1. unicórnios 2. pessoas que mudam de opinião mediante argumentos contrários. * Gente alegre busca a agitação; gente feliz, a calma. * Homossexualidade, ou solidariedade amorosa entre similares. * Acolheu a mentira por conveniência? A verdade se imporá pelo trauma. * Não é realmente inteligente se não lê… Home - [O ensino no Fernandisburgo](https://fernandolimacunha.com/o-ensino-no-fernandisburgo/): INVENTEI um país, o Fernandisburgo. No Fernandisburgo, o ensino é assim: A criança ingressa aos 8 anos. Aprende língua portuguesa e latim (o Fernandisburgo é bilíngue): leitura, gramática, compreensão textual, produção literária e retórica. A modalidade ocupa 50 por cento da grade curricular. Em matemática, leciona-se intensivamente as quatro operações fundamentais (e um pouquinho de frações, porcentagem, matemática financeira e geometria básica). No ciclo intermediário, contabilidade. No fim do curso, exponenciação e radiciação, de leve. Preenche 30 por cento da grade. Depois, estudos de cidadania e artes manuais completam o currículo: ambas as disciplinas ocupam 10 por cento da grade… Home - [Do humor](https://fernandolimacunha.com/do-humor/): — O HUMOR é uma ferramenta de aprimoramento tão neutra quanto formidável: no inteligente, aumenta a inteligência; no burro, agrava a burrice. - [Os sem-carisma e as redes sociais](https://fernandolimacunha.com/os-sem-carisma-e-as-redes-sociais/): CARISMA ou você tem ou você não tem, já dizia certa propaganda. Quando se tem carisma, até palavrão vira poesia. É um feitiço misterioso, um charme inexplicável, um solzinho particular o carisma: dele todos querem ficar pertinho, se aquecer, se iluminar; flores em botão abrem-se ante os raios que o carismático emana. Mas não vou falar dos carismáticos, muita gente já tratou deles. Quero falar com você, pessoa normalzinha, de uma aura meio acinzentada e sem graça; você que não desperta interesse algum. Já era hora de alguém falar com você. Vou identificá-lo como sem-carisma, para facilitar as coisas, ok? Os sem-carisma… Home - [Noir](https://fernandolimacunha.com/noir/): Miro tua foto que o tempo descoloria Nela enamorei-me de teus límpidos olhos: Penetram minh’alma até íntimos refolhos Ó delicada musa, namorar-te-ia! Em vão ano nasci, vã a hora em que morrias Mas unirei-me a ti, minha menina-dos-olhos: Magia ou sortilégio, qualquer meio escolho Pois tal amor veraz eu jamais desprezaria Parto sem temor, que deixar-te é agonia Cativo voluntário, prisioneiro a voar: Volto rumo a outrora, à sombra e luz noir Cores, que são elas? Frívola perfumaria, Tua expressão me basta, é perfeito convocar: A mim requeres, sinto-o: diz-me teu lindo olhar! - [Inveja](https://fernandolimacunha.com/inveja/): Me contento sem desdém Quando astro ou estrela sigo Grande êxito lhe advém Creio, aquilo é merecido Porém, ai! soube de alguém Que comeu o pão comigo Criou asas, voou pr’além Meu viver não tem sentido! Quero muito que o odeiem Que perfurem-lhe o umbigo E o sucesso que hoje tem Torne em pranto, ex-amigo! - [Gesto](https://fernandolimacunha.com/gesto/): parto, me isolo em meu casulo e assim contorno o ardil do mundo: eis-me profundo, imerso no ser… num simples gesto, imediato: abro um livro, paro pra ler - [Pensando bem...](https://fernandolimacunha.com/pensando-bem/): SABEDORIA é ser senhor das próprias reações. * Não há canalha que não seja gentil. * Impossível: convencer um burro da própria burrice. * Indignação de brasileiro, no fundo, é pura inveja. * Quem fala asterístico não dá certo na vida. * Apontar os maus não faz de alguém um dos bons. * A moda cria; a indústria massifica; a mídia populariza; o povo vulgariza; a moda acaba. E o ciclo recomeça. * Não há medíocre insatisfeito consigo mesmo. * Inteligentes se cobram demais; os idiotas se acham preparados. * O bom gosto é sempre discreto. * Não leu romance… Home ## Pages - [A Curadoria Particular: um breve manifesto](https://fernandolimacunha.com/a-curadoria-particular-um-breve-manifesto/): Um apelo para que o universo digital das nuvens, das redes sociais e dos streamings não apaguem nossas memórias, nosso acervo cultural pessoal e nossa própria história de vida Com sorte, algumas pessoas puderam nascer num lar onde foram apresentadas a bons filmes, boas músicas e boas leituras. Talvez freqüentaram teatros, museus, bibliotecas e centros culturais, desde cedo; infelizmente, porém, a maioria dos brasileiros não teve tal oportunidade e a oferta cultural mais à mão que lhes apareceu foi justamente a pior, a mais deletéria: horas diárias desperdiçadas em frente à televisão ou submetidas a audição de músicas lastimáveis, sem… Home - [Ensaio](https://fernandolimacunha.com/ensaio/): 2020 Encontros e desencontros: a difícil relação do Brasil com os livros (parte 1) Encontros e desencontros: a difícil relação do Brasil com os livros (parte 2) Encontros e desencontros: a difícil relação do Brasil com os livros (parte 3) A Curadoria Particular: um breve manifesto - [Crônica](https://fernandolimacunha.com/cronica/): 2025 A substância da Substância 2023 Clarice e o claricismo A lição de João Cabral 2022 Zé Lins ensina a ironizar Véio da Havan no Museu do Prado Meus sete níveis da prosa literária A alma sensível Diálogo com Odeque 2021 Bicho romancista, filhote romance O gentil-homem A primeira impressão é a que fica? Como encontrei Júlio Verne O outro Crime e Castigo O inútil do escrever 2020 Gorjeios literários A Eterna Fluidez Superstição Alma de explorador Do tempo Amar demais 2019 O totalitarismo digital O drama da alma inteligente A metamorfoice, o blog, a vida… Mentirosos 2018 A falência… Home - [Home](https://fernandolimacunha.com/home-2/):           Conto                     Crônica                    Ensaio                     Poesia                      Sobre            ©2025 Fernando Lima Cunha   |   Política de Privacidade   |   Termos de Uso - [Poesia](https://fernandolimacunha.com/poesia/): Minha primeira incursão no mundo da escrita se deu na forma de poesia. Na época foi um exercício sem maiores pretensões, tudo publicado entre 2014-22 num tumblr chamado Letra Nascente. Tempos depois, aprendi que versificar é muito mais que o ímpeto de escrever uns versos inspirados. Seja como for, listo os poemas abaixo a título de registro do que produzi naquele período, a maioria em poemas de pé quebrado e alguns nem tanto. 2023 os senhores respeitáveis 2020 desequívoco Opinião Natal? 2017 Revanche Sacrifício Alma gêmea volta o antipoético pauliceia gris quase Estupefato fim Da arte Noir Inveja Gesto poema… Home - [Contos](https://fernandolimacunha.com/contos/): 2025 Manuel morreu Mulher pelada 2024 O ringue Os meninos consertados O gordinho do videogame Samuel, nobre Samuel 2023 O revolucionário Fator Z O relojoeiro 2022 Dona Tuca e o homem tóxico A indômita Frangland e a jornada dos franglish 2021 Gilson, um brasileiro 2018 A metamorfoice (parte 4) A metamorfoice (parte 3) A metamorfoice (parte 2) A metamorfoice (parte 1) 2017 Corra, Elisabeth, corra O missionário e a tribo Pós-modernidade on the rocks O homem-cápsula A fábula da mercearia e a moça - [Termos de Uso](https://fernandolimacunha.com/termos-de-uso/): 1. Termos Ao acessar o site fernandolimacunha.com, você concorda em cumprir estes termos de serviço, todas as leis e regulamentos aplicáveis ​​e concorda que é responsável pelo cumprimento de todas as leis locais aplicáveis. Se você não concordar com algum desses termos, está proibido de usar ou acessar este site. Os materiais contidos neste site são protegidos pelas leis de direitos autorais e marcas comerciais aplicáveis. 2. Uso de Licença É concedida permissão para baixar temporariamente uma cópia dos materiais (informações ou software) no site fernandolimacunha.com, apenas para visualização transitória pessoal e não comercial. Esta é a concessão de uma… Home - [Contato](https://fernandolimacunha.com/contato/): Entre em contato pelo formulário abaixo ou, se preferir, mande um e-mail para fernandolimacunha@gmail.com - [Quem sou eu](https://fernandolimacunha.com/quem-sou-eu/): OS TEXTOS são minha matéria-prima desde 1997, quando, ainda adolescente, comecei a trabalhar num pequeno jornal de São Paulo. Comecei como diagramador, e nessa profissão permaneci ao longo de quinze anos. Depois disso, passei ao marketing editorial (minha formação e onde ainda atuo profissionalmente, usando o conhecimento em design gráfico como ferramenta) e, paralelo à profissão, descobri-me na literatura. Literatura é um nome algo pomposo à primeira vista, e há uma boa dose de definições para ela. De forma muito resumida, diria que literatura é a arte da escrita, o texto na melhor forma normalmente encontrado nos livros. No entanto,… Home - [Política de Privacidade](https://fernandolimacunha.com/politica-de-privacidade/): Quem somos O endereço do nosso site é: https://fernandolimacunha.com. Comentários Quando os visitantes deixam comentários no site, coletamos os dados mostrados no formulário de comentários, além do endereço de IP e de dados do navegador do visitante, para auxiliar na detecção de spam. Uma sequência anonimizada de caracteres criada a partir do seu e-mail (também chamada de hash) poderá ser enviada para o Gravatar para verificar se você usa o serviço. A política de privacidade do Gravatar está disponível aqui: https://automattic.com/privacy/. Depois da aprovação do seu comentário, a foto do seu perfil fica visível publicamente junto de seu comentário. Mídia… Home - [Encontros e desencontros: a difícil relação do Brasil com os livros (parte 3)](https://fernandolimacunha.com/encontros-e-desencontros-a-dificil-relacao-do-brasil-com-os-livros-parte-3/): Maurice Sendak, “The Big Green Book” (1962) O hábito de ler e de usar os livros (usar, eis o verbo, pois livro é meio e não fim em si mesmo); enfim, o ato de “consumir” livros ainda não se disseminou a contento no Brasil, longe disso. Não aprendemos a servir-nos deles, da mensagem ali contida (se nos servirem, evidentemente), para assim formarmos nosso próprio repertório cultural e beneficiar a outros ao nosso redor. A ilusão –ignorante e alienada, típica de quem não lê — de que importa mais a praticidade objetiva do dia a dia do que as leituras, tidas… Home - [Encontros e desencontros: a difícil relação do Brasil com os livros (parte 2)](https://fernandolimacunha.com/encontros-e-desencontros-a-dificil-relacao-do-brasil-com-os-livros-parte-2/): Maurice Sendak, “The Big Green Book” (1962) Vira e mexe o tema reaparece: “por que o brasileiro não lê”? Consultados a respeito, especialistas são praticamente unânimes (ou repetidores uns dos outros) no parecer: falta educação. O que em bom português significa “falta escola”. Será? A explicação não convence. Afinal, todo brasileiro que um dia passou pelos bancos escolares não vive exatamente uma relação de amor com os livros, salvo raras exceções. Falta mais o exemplo, na verdade; modelos de comportamento. Ler é antes de tudo um ato de afeição: se alguém de quem gostamos ou admiramos de alguma forma cultiva… Home - [Encontros e desencontros: a difícil relação do Brasil com os livros (parte 1)](https://fernandolimacunha.com/encontros-e-desencontros-a-dificil-relacao-do-brasil-com-os-livros-parte-1/): Eles sempre nos intimidaram, nos repeliram ou lhes fomos indiferentes. Mas o “museu de grandes novidades” chamado Brasil chega até a combatê-los, agora. Como nunca antes, precisamos discutir a relação dos brasileiros com os livros Cena 1. Em Rondônia, sob as ordens do governador do PSL, Coronel Marcos Rocha, e do secretário Suamy Vivecananda Abreu, a Secretaria de Educação lista uma série de livros a serem recolhidos imediatamente das escolas públicas do Estado. De leque amplo, na lista figuram obras que vão de Machado de Assis a Caio Fernando Abreu, passando por Euclides da Cunha, Edgar Allan Poe, Nelson Rodrigues,… Home [comment]: # (Generated by Hostinger Tools Plugin)