Ninfa

Leva-me, ó ninfa, em afável mistério Que no rubro enlaçar de teus cabelos Envolvo-me em teus cachos, tão vermelhos Num doce voar, qual pássaro ou ébrio Revela-me a alma, quem sou e não sabia: Segredos…

Guerreiro ferido

Descansa, meu filho, agora descansa: Despido esteja de amargos temores Respira e resguarda tua esperança Que os vis espinhos protegem as flores Refaz já teu brio, galopa a vingança Ergue tua fibra, vêm dias melhores…

Memorial

O inferno de Niemeyer não arde. O inferno de Niemeyer é prédio: de vidro e aço concreto armado feiura e tédio.

Pichado amor

Num muro da cidade, a inscrição profundamente prosaica, diz: “mais amor, por favor”. Assim reclama o neo-chavão. Medito e penso: errado pedido. Sai, desde a base, deslocado: pois pede-se um amor medido, um pseudo-amor, quantificado….

O violeiro

Todo dia, na rua do bairro fabril e decadente o violeiro senta-se com sua viola. Entre um acorde e outro, o caipira desraizado levanta a aba do chapéu, cumprimentando transeuntes e carros que o ignoram,…

Urbe

A Criação:      o belo,      o simples,      a perfeição. Lugar da harmonia do equilíbrio sutil e do estritamente necessário. Eis, num dado momento o Homem dotado de vontade própria errante inventa a urbe e opõe-se à…

Zeitgeist

Meus risos andam tão raros… Quem dera ter a alegria fútil das ruas: não posso. Não disparo chavões como se fosse inteligência. Vida social é cumprir convenções: o agir compulsório, facilitar convivências. É o preço…

Poetisa

A poetisa rejeita o nome poetisa: quer ser poeta feito homem que versifica. Eu não sei que vantagem tem em, feito homem, chamar-se poeta: é algo maior? Sê poetisa, menina! faça poemas: não se incomode…

O muito

O muito aprender fez-lhe afetado. O muito duvidar fez-lhe amargo. O muito discordar fez-lhe cínico. O muito falar fez-lhe raso. O muito pensar fez-lhe instável. O muito escrever fez-lhe pernóstico. O muito ler fez-lhe pedante….

leve

subitamente esqueço de mim largado ao vento dou-me conta, enfim: nunca fui feliz como estou assim