A substância
da Substância

Tempo de leitura: 8 minutos

She’s a sinner in a side show
She feels at home when there’s nowhere left to go
She’s the devil, you understand
Break the man

Tears For Fears, “Break the Man” (2022)

TANTO A CANÇÃO ACIMA quanto A Substância (The Substance, EUA, 2024), filme de Coralie Fergeat estrelado por Demi Moore, parecem exprimir certa característica dos tempos em que vivemos. Fui longe, mas aproximo o foco: é que só agora, no streaming, assisto o filme ganhador do Oscar de melhor maquiagem, além de concorrer em mais quatro categorias, incluindo melhor atriz, direção, roteiro original e filme. A película já havia chamado minha atenção na premiação deste ano por exclusão, na cerimônia do Oscar, pois Demi Moore concorria com a brasuca Fernanda Torres (“nossa Fernanda” para os íntimos), por esse filme. No fim das contas, “nossa Fernanda” levou a estatueta — inédito feito verde e amarelo, diga-se — deixando a consagrada atriz americana na fila.

Bem, cá em minha choupana imaginei que veria no filme uma espécie de sessão da tarde, o que de certa forma é mesmo (apesar do nu corajosíssimo de Moore, em plenos – e ótimos – sessenta anos). A Substância conta a história de uma apresentadora de tevê, Elisabeth Sparkle (Demi Moore). Ela conduz um programa matutino de ginástica para donas de casa, na mesma emissora e por anos a fio. Tudo corre bem quando, num belo dia, ela vai ao camarim após a gravação e o banheiro feminino está em manutenção; resta como opção o banheiro masculino. Ela checa se há alguém, ninguém, tudo certo. Então ela usa o banheiro dos homens. Devidamente fechada na cabine, entra após ela o diretor de programação da emissora, Harvey, interpretado pelo velho Dennis Quaid. Guarde a palavra velho.

Então o tiozão Harvey (Quaid) fala ao celular enquanto urina e, com a maior indiscrição que só a macheza dá, esculacha Elisabeth pelas costas, sem saber que ela escuta escondida, chamando-a velha, ultrapassada e outras lindezas; na intimidade de um enorme banheiro vazio, o diretor revela a intenção procurar carne nova para o show matutino de ginástica, de preferência uma gata mais nova e gostosa.

Aos berros, o canastrão deixa o banheiro (detalhe: sem lavar as mãos), e Elisabeth Sparkle sai da cabine um pouco em choque, sem entender bem o que houve ali, mas aquilo mudará tudo: até então, ela ignorava que a achavam velha ou que a substituiriam em breve. Ainda tentaria conversar com o diretor num almoço, numa cena em que o chefão devora com as mãos um tacho de camarões e os engole de boca aberta, com a câmera em close máximo na boca nojenta de Harvey (Quaid) mascando a pasta triturada, após o que, de novo, ele não lava as mãos e sai aos berros, quando avista um velho amigo. O homem não é muito fã de água e sabão.

O fato é que aquele comentário de banheiro do macho-branco-escroto Harvey destrói a vida da pobre Elisabeth, o filme deixa entrever. Sim, foi ele. Curioso, pois até ali Elisabeth Sparkle era uma cinquentona bem resolvida, rica, empoderada, livre, emancipada; ela vive só e muito bem numa cobertura luxuosa de vidraça integral, e não dá mostras de precisar de machos para nada. Mesmo assim, isso não é suficiente para suplantar a fala infeliz do diretor escroto Harvey. Então não há empoderamento que possa com um comentário imbecil de um chefe desbocado?

Depois Elisabeth passa mal, vai ao hospital, e lá descobre com um enfermeiro meio efebo uma fórmula de rejuvenescimento chamada The Substance, a tal substância que dá nome ao filme. Na verdade, The Substance é um kit de tratamento que dura exatos sete dias (lembrou o Seven Day Diet dos anos 90), e permite, mediante o correto uso semanal, criar um novo eu mais jovem derivado do eu original, algo como um simbionte.

Ao aplicar em si mesma a fórmula, Elisabeth (Demi Moore) cria e expele sua réplica jovem. Surge então Sue, apenas Sue (Margaret Qualley), que eclode das costas de Elisabeth, rasgando suas carnes para vir à luz (a inspiração em Alien é óbvia). Libertada do corpo de Elisabeth, a formosa Sue continua sua parte do tratamento e, num teste de elenco, é aprovada para a vaga da hospedeira original. Ninguém sabe, no entanto, que Sue é a versão jovem da mesma Elisabeth, agora duplicada graças à dita substância.

Enquanto isso, o velho corpo de Elisabeth Sparkle permanece nu, rasgado e prostrado no banheiro da cobertura, enquanto a versão jovem e cheia de vida vai à luta, faz charme e rebola para a delícia dos marmanjos (do macho-branco Harvey, especialmente). O que se seguirá é a luta pela fama entre a jovem Sue contra a velha Elisabeth, duas partes de uma só pessoa, e resta saber quem ganhará a parada.

Escrito e dirigido pela francesa Coralie Fargeat, A Substância revela, por baixo do enredo, uma visão intencionalmente provocativa do homem e da mulher, com vantagem para esta. A proposta passa longe da sutileza. No longa, complexidade humana é assunto feminino: o departamento homem, aqui, é somente composto de escrotos ou perdedores. Não há nuance ou meio-termo, nem possibilidade de bom caráter neles. Já as mulheres, mesmo as coadjuvantes e figurantes, são plenas, funcionais e sãs, ainda que sempre submetidas, coitadinhas, a se desnudarem sob os mandos pretensamente artísticos de tipos como Harvey mais um bando de manda-chuvas velhos.

Considerado um filme de body horror (confesso que desconhecia o gênero), o filme tenta discutir – com não poucos buracos no roteiro –, o drama da feminilidade sob o tacão de um machismo dominante, tudo a partir do corpo. Quer dizer, se o tal Harvey não dissesse aquilo no banheiro, ou talvez se Elisabeth Sparkle não ouvisse a abobrinha, não haveria nenhuma substância, nenhuma Sue, e tudo ficaria bem. A culpa, então, foi dele e toda dele.

Culpa dele e deles, sempre assim: o mal da mulher é o homem, é o que a obra diz ou grita. No filme, homem algum é poupado e não há sequer o clichê amigo-gay-sensível para amparar Elizabeth Sparkle um tico que seja. Mas ela também não tem amigas (um dos buracos do roteiro; que mulher não tem sequer uma coleguinha para jogar conversa fora?), e vive completamente só, sem sequer uma companhia eventual que seja. Impensável para uma consagrada apresentadora de tevê, mas o roteiro deixa o buraco lá.

Na hora, tive a impressão de que a diretora Coralie Fargeat fez o seu A Substância como uma espécie de filme-vingança contra o homem. Sei lá, ela precisava desafogar. Depois confirmei: militante feminista, ela deu entrevistas parecendo divertir-se muito com a repercussão da obra (sempre muito positiva na imprensa, diga-se), ao mesmo tempo em que furtou-se a fazer concessões na história, como se um desagravo de séculos não permitisse luxos do tipo. Além disso, a francesa disse ter escrito mesmo o filme “com raiva”¹. De quê, exatamente? Ou de quem? Ela não deixa claro.

Entretanto, a resposta parece óbvia: a masculinidade inteira. Nas entrelinhas, o filme parece indicar o tempo todo “o mundo seria melhor se tivesse apenas nós, filhas de Vênus”; isso enquanto machos providenciais certamente empunhavam câmeras, cabos e luzes no set; ou quando montavam e editavam a película, ajudando o filme a faturar os gordos 77 milhões de dólares mundo afora. Mas isso é bobagem.

Eis o busílis: A Substância é um filme identitário, woke de corpo e de alma (detesto a palavra, confesso); no caso, pela bandeira feminista. Aliás, alma não, só corpo: o woke lida apenas com corpos enquanto entes de razão, e nem chega ao nível da pessoa: reduzindo sempre a existência humana à mera corporalidade – cabeça, tronco e membros, carnes ambulantes sem vida interior ou qualquer subjetividade pessoal.

Filhote caçula do progressismo – o esquerdismo pós-modernista –, o woke não considera nada para além da aparência material e das relações de dominação entre opressores (no caso do filme, machos brancos e velhos) e oprimidos (mulheres de todos os tipos). Esqueci uma concessão: há ali um homem negro, apresentador, que Elisabeth Sparkle assiste pela tevê enquanto, ó coincidência, prepara uns chouriços na hora. Homem negro, chouriço: única sutileza dispensada ao macho em A Substância.

O filme é também identitário quando segue o receituário típico: há uma tese axiomática e inescapável (opressor e oprimido, homem e mulher, branco e preto, pif e paf); resta à historinha apenas escancarar a verdade inquestionável. No caso de A Substância, os males do machismo e seus promotores diretos, os machos de toda sorte. Eis a tese posta. Se a mulher se destrói, se fica paranóica com o corpo até a mutilação, se chega a injetar uma droga esquisita e suicida no corpo, é tudo por culpa pura e simplesmente deles, porque eles falam aquelas coisas delas. Quanto poder tem o empoderamento… Já elas, apesar de fortes e independentes, não podem responder pelas próprias escolhas já que o patriarcado é atmosférico.

Por falar em patriarcado, a figura do macho-branco-velho (fenótipo de patriarca, certo?), perpassa o filme: eles mandam sempre, da alta diretoria aos moços da técnica. Resta às mulheres, coitadinhas, obedecerem e aceitarem; de preferência, com roupa mínimas ou despidas. Nenhuma mulher é dona de si em A Substância: tudo é dos homens e para os homens; elas inclusive.

Pessoalmente, embora involuntariamente homem-macho (culpem papai do céu), tive alguma sensibilidade para ver em A Substância outra questão (ou questões), tudo importante de se discutir e levantar, sem dúvida: a pressão imensa que a mulher enfrenta para estar sempre linda, perfeita e em forma, e os consequentes males em muitos níveis que isso acarreta; também como essa mesma pressão pela beleza interdita e anula o natural amadurecimento de uma mulher (embora, meu Deus, Sparkle-Moore podiam se sentir feias em algum momento? Enfim…). Além disso, há sim uma imagem (diria velha e demodé para uma denúncia tão veemente) de homens de certa geração que dividem as mulheres em gostosas cá fora, senhoras lá em casa. Mas isso é velho como esses sujeitos, e tal disposição beira a decrepitude tanto quanto eles.

Também é possível pensar, se o filme fosse um tiquinho mais honesto, o quanto a própria mulher (no caso de Sue, ou de Elizabeth que injeta qualquer coisa no corpo para ser Sue), o quanto a própria mulher não deseja precisamente esse olhar de machos escrotos, e além disso, folga muito em saber que agrada, provoca e se beneficia disso? De novo, elas nunca se responsabilizam? Mas elas não são dotadas de vontade própria, não podem simplesmente medir um pouco as consequências e recusar?

Há muito não é assim na vida real. Sobram mulheres mandando e desmandando em tudo por aí. Digamos, a própria Coralie Fargeat, a diretora. Ela fez o filme sob as ordens de algum macho ou de moto próprio? De resto, é contar o número de mulheres e homens num escritório qualquer e confirmar: quem é maioria ali? Ou simplesmente olhar os vagões do metrô ou trem, as filas dos aeroportos. Se o macho manda tanto no mundo, se é assim tão dominante, ultimamente ele até que tem andado bem discreto e recolhido.

Na premiação do Oscar, comentou-se que A Substância seria a última chance de Demi Moore conquistar um inédito Oscar de melhor atriz, após décadas de bons serviços prestados à telona. Perdeu para Fernanda Torres, mas principalmente, creio, teve a infelicidade de não disputar a estatueta com um filme melhorzinho. Ela merecia pela carreira, mas fazer o quê? Vai ver, foi culpa de algum macho escroto.


¹Realizadora Coralie Fargeat fala da paridade de género: “Está na altura de uma verdadeira mudança” (Euro News)



Texto 100% Criação Humana / 0% Inteligência Artificial
(Selo criado por Beth Spencer)